Saúde

Estudo liga tédio crônico nas ruas ao uso de drogas e cobra mudança em abrigos
A pesquisa aponta que a experiência persistente de 'tempo vazio' e falta de atividades significativas funciona como gatilho e combustível para o uso de álcool e outras drogas entre pessoas sem moradia.
Por Laercio Damasceno - 14/02/2026


Foto: Banco de imagens


Um estudo publicado na revista científica PLOS Mental Health lança luz sobre um fator frequentemente negligenciado no debate sobre população em situação de rua: o tédio. A pesquisa, conduzida por cientistas da University of Western Ontario e de outras instituições canadenses e norte-americanas, aponta que a experiência persistente de “tempo vazio” e falta de atividades significativas funciona como gatilho e combustível para o uso de álcool e outras drogas entre pessoas sem moradia.

O artigo — assinado por Cory Herzog-Fequet e colegas — analisou 18 entrevistas qualitativas com adultos em situação de rua em três cidades de Ontário (London, Hamilton e Kingston). A síntese dos depoimentos é resumida em uma frase extraída de um dos participantes: “mãos ociosas são o playground do diabo”.

53% relatam uso de substâncias

Embora o tédio possa parecer trivial diante de índices elevados de morbidade e mortalidade associados à falta de moradia, os autores lembram que estimativas anteriores indicam que cerca de 53% das pessoas em situação de rua apresentam uso problemático de substâncias. A literatura já sugeria uma associação entre tédio e consumo de drogas, mas os mecanismos dessa relação eram pouco explorados.

“Os participantes identificaram o tédio como um fator que aumenta a propensão ao uso de substâncias”, escrevem os autores. Segundo o estudo, a experiência de abrigos altamente estruturados, com regras rígidas e poucas oportunidades de autonomia, intensifica a sensação de falta de sentido e de controle sobre o próprio tempo.

Entre o isolamento e a “cultura da droga”

Os relatos mostram um dilema recorrente: para evitar o consumo, muitos optam por se isolar — dormindo por longos períodos ou permanecendo restritos ao espaço do abrigo. Mas o isolamento aprofunda o tédio. Por outro lado, circular nas áreas comuns ou nas imediações expõe a pessoa a um ambiente em que, segundo alguns entrevistados, “80% a 90%” fazem uso de substâncias.

A pesquisa identificou dois eixos centrais:

1. O contexto do tédio — marcado por mobilidade restrita, escassez de atividades culturais ou recreativas e convivência forçada com pares que também usam drogas.

2. Substâncias como fuga — o consumo aparece como forma de anestesiar pensamentos dolorosos, acelerar a passagem do tempo, obter estímulo cognitivo ou simplesmente preencher o dia.

“Você não pode tirar férias, não pode ir ao zoológico, não tem dinheiro. Então você se droga e olha para o céu”, relatou um participante. Outro afirmou que, sem alternativas produtivas, “você está apenas permitindo a si mesmo abusar de substâncias”.


Tédio, trauma e saúde mental

Os depoimentos associam o tédio à ruminação de perdas — filhos, vínculos familiares, trabalho e estilo de vida anterior. Em vez de ser apenas ausência de ocupação, o tédio aparece como estado emocional aversivo que amplia sentimentos de depressão, ansiedade e trauma.

Nesse contexto, o uso de drogas funciona como estratégia de “automedicação”. A pesquisa sugere que o ambiente institucional pode, involuntariamente, reforçar esse ciclo ao limitar oportunidades de engajamento significativo.

Base teórica: liberdade e capacidades

O estudo foi guiado pela chamada “Abordagem das Capacidades”, desenvolvida pelo economista Amartya Sen e aprofundada por Martha Nussbaum. A teoria sustenta que o desenvolvimento humano depende não apenas da renda, mas da liberdade real de escolher e realizar atividades valorizadas.

Na avaliação dos pesquisadores, a população em situação de rua tem restringidas capacidades básicas como controle sobre o próprio ambiente, participação social, acesso a lazer e atividades criativas, inserção produtiva no trabalho.

Sem essas oportunidades, o tempo se converte em espaço de vulnerabilidade.

Foto: Banco de imagens

Para os autores, enfrentar o uso de substâncias entre pessoas sem moradia exige ir além da oferta de tratamento clínico. “A provisão de atividades significativas pode desempenhar papel importante na redução tanto do tédio quanto do uso de substâncias”, defendem.

Experiências citadas na literatura indicam que oficinas culturais, programas de trabalho apoiado e espaços de convivência com autonomia ampliada podem reduzir o consumo problemático. No entanto, tais iniciativas ainda são escassas ou instáveis.

Impacto social

Especialistas em saúde pública observam que o custo do uso de substâncias — em internações, atendimentos de emergência e permanência prolongada nas ruas — recai sobre todo o sistema de proteção social. Ao sugerir que o tédio é parte estrutural do problema, o estudo amplia o debate para além da responsabilização individual.

“Trata-se de uma questão de dignidade e de acesso a oportunidades”, afirmam os autores. Em um cenário de crescimento da população em situação de rua em várias cidades de países de alta renda, a pesquisa sugere que preencher o tempo com sentido pode ser tão estratégico quanto oferecer abrigo.

Ao deslocar o foco para a qualidade das experiências cotidianas nos abrigos e nas ruas, o estudo propõe uma pergunta incômoda às políticas públicas: se o vazio produz dependência, que alternativas estão sendo criadas para ocupá-lo?

Referência
Herzog-Fequet C, Gewurtz R, Hansen N, Read H, Marshall C (2026) Qual é a relação percebida entre tédio e uso de substâncias entre pessoas em situação de rua? PLOS Ment Health 3(2): e0000354. https://doi.org/10.1371/journal.pmen.0000354

 

.
.

Leia mais a seguir